sábado, 8 de novembro de 2008

Começando pela Introdução

A Introdução do Livro dos Espíritos foi relativamente pouco modificada da primeira para a sua segunda edição. Entretanto, das poucas modificações pode-se extrair observações interessantes.

Postura defensiva
A apresentação de uma nova doutrina à sociedade exigiu de Kardec uma postura mais defensiva ao tratar dos novos conceitos e das explicações envolvendo os fenômenos mediúnicos.

Com a muito boa aceitação da primeira edição do Livro Kardec provavelmente se sentiu menos exigido para a publicação da sua segunda edição. Talvez a sedimentação dos ensinamentos espíritas conquistada por meio de um maior número de mensagens levou Kardec a reformular sua Introdução tornando-a mais firme e demonstrando segurança.

Nesse sentido é possível compreender algumas das modificações. A primeira delas é a exclusão do subtítulo 'Reputação de várias objeções' que claramente demonstrava esta necessidade de se precaver contra as críticas dos opositores.

Além de sair da postura defensiva de uma doutrina circunscrita Kardec deixa claro na segunda edição que o Livro dos Espíritos possui um caráter mais abrangente e se presta a construção de uma nova filosofia. Esta observação baseia-se na inserção do seguinte parágrafo ainda no início da Introdução:

"Como especialidade, o Livro dos Espíritos contém a doutrina espírita; como generalidade, prende-se à doutrina espiritualista, uma de cujas fases apresenta. Essa a razão porque traz no cabeçalho do seu título as palavras: Filosofia espiritualista."

Vale destacar também a supressão de um extenso parágrafo, logo após a exposição dos princípios espíritas, que tratava exatamente de se resguardar contra os antagonistas da nova doutrina. Ainda assim, boa parte dele foi aproveitado no final da seção VII (*) após a exposição do que seria a nova ciência espírita.

Na meio da seção X Kardec excluiu uma frase explicitamente direcionada aos antagonistas e que poderia ser classificada como presunçosa.

"Os princípios doutrinários deste Livro oferecem à meditação condições necessárias para os antagonistas terem comunicações de ordem elevada e para se libertarem da obsessão de Espíritos inferiores."

Nova ciência
Para a segunda edição Kardec decidiu explorar melhor a nova ciência. Veja, por exemplo, o pequeno trecho inserido na seção IV destacando o papel da observação:

"Há aqui uma circunstância muito importante, que se deve assinalar. É que ninguém imaginou os Espíritos como meio de explicar o fenômeno; foi o próprio fenômeno que revelou a palavra. Muitas vezes, em se tratando das ciências exatas, se formulam hipóteses para dar-se uma base ao raciocínio. Não é aqui o caso."

Já na seção VII Kardec se esforça um pouco mais na explicação do que seria esta nova ciência. Para isto, ele inclui três novos e extensos parágrafos dos quais apenas o início do primeiro está reproduzido abaixo.

"As ciências ordinárias assentam nas propriedades da matéria, que se pode experimentar e manipular livremente; os fenômenos espíritas repousam na ação de inteligências dotadas de vontade própria e que nos provam a cada instante não se acharem subordinadas aos nossos caprichos. As observações não podem, portanto, ser feitas da mesma forma; requerem condições especiais e outro ponto de partida. (...)"

Mecanismos da mediunidade
Com o desenvolvimento da prática mediúnica Kardec começou a reavaliar os mecanismos empregados para a comunicação dos espíritos.

A inserção do parágrafo no início da seção V dá uma dimensão da importância relativa ao mecanismo proposto inicialmente pelos espíritos e apresenta novas possibilidades de comunicação.

"Reconheceu-se mais tarde que a cesta e a prancheta não eram, realmente, mais do que um apêndice da mão; e o médium, tomando diretamente do lápis, se pôs a escrever por um impulso involuntário e quase febril. Dessa maneira, as comunicações se tornaram mais rápidas, mais fáceis e mais completas. Hoje é esse o meio geralmente empregado e com tanto mais razão quanto o número das pessoas dotadas dessa aptidão é muito considerável e cresce todos os dias. Finalmente, a experiência deu a conhecer muitas outras variedades da faculdade mediadora, vindo-se a saber que as comunicações podiam igualmente ser transmitidas pela palavra, pela audição, pela visão, pelo tato, etc., e até pela escrita direta dos Espíritos, isto é, sem o concurso da mão do médium, nem do lápis."

Kardec também inclui um novo princípio em sua lista de princípios espíritas para deixar claro a magnitude da influência dos espíritos sobre nós.

"Os Espíritos exercem incessante ação sobre o mundo moral e mesmo sobre o mundo físico. Atuam sobre a matéria e sobre o pensamento e constituem uma das potências da Natureza, causa eficiente de uma multidão de fenômenos até então inexplicados ou mal explicados e que não encontram explicação racional senão no Espiritismo."

Preocupação com as palavras
Da lista extensa de princípios da doutrina espírita Kardec modificou poucos. Dentre eles existem dois onde não é possível dar uma explicação segura para a alteração, mas demonstra a preocupação de Kardec pelas palavras empregadas. Vejam:

Primeira edição
"Les êtres corporels habitent les différents globes de l'univers.
Les êtres immatériels ou esprits sont partout : l'espace est leur domaine."

Segunda edição
"Les Esprits incarnés habitent les différents globes de l'univers.
Les Esprits non incarnés ou errants n'occupent point une région déterminée et circonscrite ; ils sont partout dans l'espace et à nos côtés, nous voyant et nous coudoyant sans cesse ; c'est toute une population invisible qui s'agite autour de nous."

Traduzindo...

Primeira edição
"Os seres corporais habitam os diferentes globos do Universo.
Os seres imateriais ou espíritos povoam o espaço que é seu domínio."

Segunda edição
"Os Espíritos encarnados habitam os diferentes globos do Universo.
Os Espíritos não encarnados ou errantes não ocupam uma região determinada e circunscrita; estão por toda parte no espaço e ao nosso lado, nos vendo e nos acotovelando sem cessar. É toda uma população invisível que se agita em torno de nós."

O mesmo acontece no último princípio listado onde Kardec se vale de um novo conceito do Espiritismo.

Primeira edição
"Mas também nos ensinam que não existem culpas irremissíveis e que não possam ser apagadas pelo arrependimento sincero e por uma melhor conduta. (...)"

Segunda edição
"Mas também nos ensinam que não existem culpas irremissíveis e que não possam ser apagadas pela expiação. (...)"

Parece que a expiação se tornou um conceito mais apropriado do que o arrependimento sincero porque daria a impressão de "remissão dos pecados" e isto seria contrário a lei de causa e efeito.

Perispírito
Talvez por descuido ou por não estar ainda bem estabelecido o conceito de perispírito Kardec não incluiu na primeira edição este conceito na lista dos princípios espíritas da Introdução (seção VI). Na segunda edição ele corrige isto incluindo dois parágrafos nesta lista.

"O laço ou perispírito, que prende ao corpo o Espírito, é uma espécie de envoltório semimaterial. A morte é a destruição do invólucro mais grosseiro. O Espírito conserva o segundo, que lhe constitui um corpo etéreo, invisível para nós no estado normal, porém que pode tornar-se acidentalmente visível e mesmo tangível, como sucede no fenômeno das aparições.
O Espírito não é, pois, um ser abstrato, indefinido, só possível de conceber-se pelo pensamento. É um ser real, circunscrito, que, em certos casos, se torna apreciável pela vista, pelo ouvido e pelo tato."

Evolução do espírito
Kardec demonstra já nesta Introdução uma preocupação com o processo evolutivo dos espíritos. Em alguns trechos ele faz questão de retocar expressões para possibilitar uma compreensão mais gradual e menos definitiva deste processo. Assim, ao explicar sobre as diferentes acepções da palavra alma Kardec altera o final do parágrafo que trata do sentido dado a esta palavra pelos materialistas. Vejam:

Primeira edição
"Segundo uns, a alma é o princípio da vida material orgânica. Não tem existência própria e se aniquila com a vida: é o materialismo puro. Neste sentido e por comparação, diz-se de um instrumento rachado, que nenhum som mais emite: não tem alma. De conformidade com essa opinião, tudo que vive teria alma, tanto plantas como animais e o Homem."

Segunda edição
"Segundo uns, a alma é o princípio da vida material orgânica. Não tem existência própria e se aniquila com a vida: é o materialismo puro. Neste sentido e por comparação, diz-se de um instrumento rachado, que nenhum som mais emite: não tem alma. De conformidade com essa opinião, a alma seria efeito e não causa."

A primeira vista parece que Kardec teria recusado a idéia de que todos os seres vivos têm alma. Mas, uma observação atenta, mostra que esta idéia se encontrava em posição inadequada uma vez que o propósito do parágrafo seria combater a concepção materialista de que não existe vida fora do corpo.

Além disso, a idéia de que "tudo que vive teria alma" não está associada propriamente ao materialismo e sim, ao espiritualismo. E isto pode ser observado nos novos diálogos com os espíritos (na segunda edição) que atribuem uma alma aos animais (597) e esta conservaria a sua existência e sua individualidade após a morte do corpo (598).

E em substituição a esta idéia kardec apresenta uma que de fato diferencia a idéia materialista da espiritualista. Mais a frente Kardec faz uma nova revisão acrescentando que para o espiritualista a alma seria a causa e não o efeito.

"Segundo outros, finalmente, a alma é um ser moral, distinto, independente da matéria e que conserva sua individualidade após a morte. (...) Essa doutrina, segundo a qual a alma é causa e não efeito, é a dos espiritualistas."

Kardec ainda exclui da primeira edição os dois parágrafos abaixo:

"Chamamos, por fim, Principio Intelectual à inteligência animal, comum em diversas graduações a homens e a animais, e independente do Princípio Vital cuja fonte nos é desconhecida.
Alma, na acepção exclusiva adotada [em Espiritismo], é atributo especial do Homem."

Esta exclusão é mais um indicativo de que neste campo as idéias não podem ser definitivas e sustenta uma nova postura diante da comparação entre a alma dos homens e dos animais.

Já nos princípios da doutrina espírita Kardec reformula sutilmente um deles para ficar de acordo com esta nova postura. Esta minuciosa revisão já foi objeto de estudo neste blog.

Qualidade das comunicações
Na sua segunda edição Kardec procurou explicar melhor a natureza das comunicações que servem de base para a nova ciência. Assim destacou a diferenciação da qualidade das comunicações (boas e más) e a importância da identificação do comunicante. Para isto, Kardec fez algumas adições através do último parágrafo da seção X e dos dois últimos da seção XII.

Contradições
kardec altera o primeiro parágrafo da seção XIII para dar um caráter menos enfático às contradições evitando confirmá-las. Veja:

Primeira edição
"As observações acima nos conduzem a dizer algumas palavras sobre as contradições que se possam encontrar na solução diferente dada pelos Espíritos a certas perguntas e das quais os adversários tentam tirar um argumento contra a Doutrina."

Segunda edição
"As observações que aí ficam nos levam a dizer alguma coisa acerca de outra dificuldade, a da divergência que se nota na linguagem dos Espíritos."

Também é refeita a primeira frase do quarto parágrafo da mesma seção.

Primeira edição
"Necessário é notar entretanto que não raramente a contradição é mais aparente que real, mais de forma da linguagem do que de fundo do sentido."

Segunda edição
"A contradição, ademais, nem sempre é tão real quanto possa parecer."

Loucura
Kardec inclui na seção XV quatro extensos parágrafos abordando o tema loucura.

A conclusão
A conclusão da Introdução compreendida por seus quatro últimos parágrafos na primeira edição e na seção XVII da segunda é totalmente reformulada. Aparentemente, não há uma explicação lógica para esta reformulação. Mas convém ressaltar uma mudança de ênfase do aspecto moral na primeira edição para um aspecto mais racional na segunda.

Na segunda são indicadas mais razões para um estudo sério e perserverante como forma de alcançar a crença na fé espírita. E, além disso, Kardec faz uma última consideração (não contemplada na primeira edição) ponderando sobre o encadeamento de todas as coisas que pode ser resumida na frase "Tudo então se liga, tudo se encadeia, desde o alfa até o ômega".

(*) A indicação das seções da Introdução é relativa a segunda edição já que na primeira não existe esta separação.

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