sábado, 23 de janeiro de 2010

Definição ao lado

A pergunta número 1 do Livro dos Espíritos que encabeça uma extensa lista de perguntas sobre as mais variadas coisas é: "Que é Deus?". Curiosamente, a resposta a esta pergunta foi publicada na primeira edição do Livro de forma diferenciada. A primeira parte ou Livre Premier, na qual inclui a pergunta número 1, está dividida em duas colunas. A primeira Kardec reservou para as perguntas e as respostas "textuais" dos espíritos e a segunda coluna para uma redação alternativa baseada nestas perguntas e respostas.

Enfim, na primeira edição a pergunta número 1 não tem propriamente uma resposta, mas uma "definição" colocada na segunda coluna. No lugar da resposta Kardec colocou entre parênteses "Définition ci-à-côté". Vejam:



Uma dúvida autêntica que surge daí é: foram realmente os espíritos que deram esta definição como resposta a pergunta? Como toda boa dúvida não há uma resposta fácil e definitiva. Mas, podemos fazer alguns apontamentos que possam conduzir a algumas conclusões.

Primeiramente, devemos considerar que há um propósito na diferenciação da forma como é apresentada a primeira pergunta. E este propósito não é banal como poderia se aventar (por exemplo, um problema de editoração).

Uma das primeiras hipóteses é a de que não haveria a necessidade de uma nova redação para a resposta por ela ser simples. Esta hipótese poderia ser plausível se não existissem outras perguntas e respostas que também não necessitassem de uma redação complementar. Mais detalhes sobre esta e outras hipóteses podem ser conferidos no post Infinito de Deus.

Outro ponto relevante está nos termos como é apresentada a resposta: "definição ao lado". Se apenas se tratasse de uma resposta dos espíritos Kardec provavelmente teria colocado "resposta ao lado" (como fez no diálogo 53). Se não o fez então precisamos analisar o valor e o significado de uma "definição".

Para o filósofo francês André Lalande, uma definição é a determinação dos limites da extensão de um conceito. Ou seja, é uma forma de estabelecer o que determinado termo diz. A definição de Deus, portanto, se refere ao significado atribuído por Kardec no discurso do seu Livro. Ou seja, é a apresentação do que se entende pelo termo Deus e não propriamente a validação do seu significado. Por exemplo, ao dizer que Deus é a causa primeira não se coloca em dúvida de que esta causa exista.

O estabelecimento das definições é muito importante num diálogo e, em geral, decorre de uma negociação entre as partes. Do lado de Kardec há todo um arcabouço filosófico que discutia Deus como causa primeira. O escrito francês François Fénelon, por exemplo, em A Existência de Deus, afirma:

Seção LXV: (...) Assim, Deus é a causa real e imediata de todas as configurações, combinações, e movimentos de todos os corpos do universo.

Seção LXXXVIII: Nós devemos necessariamente reconhecer a Mão de uma Causa Primeira sobre o Universo sem se perguntar por que a primeira Causa teria deixado Defeitos nele.

Fénelon também foi um dos autores espirituais do Livro dos Espíritos desde sua primeira edição. Em dezembro de 1859, Kardec divulga em seu Boletim da Sociedade que "o senhor R... comunicou uma folha sobre a qual obteve a escrita direta (...) não traz senão duas palavras: Deus, Fénelon".

Rivail, antes de ser Kardec, já tinha contato com as obras de Fénelon como vemos no pronunciamento do senhor E. Muller em ocasião da desencarnação de Kardec (Revista Espírita, maio de 1869):

Vindo a Paris, e sabendo escrever e falar o alemão, tão bem quanto o francês, traduziu para a Alemanha os livros da França que mais tocavam seu coração. Foi Fénelon que ele escolheu para fazê-lo conhecer, e essa escolha revela a natureza benevolente e educada do tradutor. Depois, ele se entregou à educação. Era sua vocação instruir. Seus sucessos foram grandes, e as obras que publicou, gramática, aritmética e outras, tornaram popular o seu verdadeiro nome, o de Rivail.

A definição de Deus como Inteligência Suprema também é encontrada nos contemporâneos franceses de Kardec. Por exemplo, o filósofo Lamennais em Esquisse d'une philosophie: De Dieu et l'univers definiu:

Deus é Poder infinito, Inteligência infinita, Amor infinito. (Dieu est donc Puissance infinie, Intelligence infinie, Amour infini)

Lamennais, assim como Fénelon, tem grande contribuição para o conhecimento espírita. Por mais de cem vezes ele é citado nas edições da Revista Espírita e sendo algumas por causa das comunicações atribuídas a ele.

De qualquer forma a definição de Deus colocada no Livro dos Espíritos pode ser atribuída tanto aos espíritos encarnados quanto desencarnados já que aqueles que se comunicaram com Kardec já estabeleciam tal definição quando ainda encarnados na Terra.

9 comentários:

Neusa disse...

parabens pelo blog!
o meu tbm ésobre a doutrina, sequiseres pode visitar,seguir e divulga-lo

Adriano Genovez disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Adriano Genovez disse...

Consta no texto, por exemplo, da 76ª edição, em português, da FEB:

Questão nº 767 = É contrário à lei da Natureza o insulamento absoluto?
“Sem dúvida, pois que por instinto os homens buscam a sociedade e todos devem concorrer para o progresso, auxiliando-se mutuamente.”

Questão nº 768 = Procurando a sociedade, não fará o homem mais do que obedecer a um sentimento pessoal, ou há nesse sentimento algum providencial objetivo de ordem mais geral?
“O homem tem que progredir. Insulado, não lhe é isso possível, por não dispor de todas as faculdades. Falta-lhe o contacto com os outros homens. No insulamento, ele se embrutece e estiola.”

Como muitos de nós se sentiu incomodado com alguma coisa nas respostas dessas questões, num grupo de estudos de que fazemos parte, pusemo-nos ao estudo mais largo do caso, até porque sabemos que, em geral, as respostas da Espiritualidade às questões formuladas por Kardec primam tanto por objetividade quanto por clareza, mas que não se fizeram muito visíveis nessas linhas.

Assim, convidamos você para, conosco, observar a pertinência que há numa simples troca, isto é, entre as mesmas perguntas e as mesmas respostas, essas, porém, em nova ordem:

Questão nº 767 = É contrário à lei da Natureza o insulamento absoluto?

“O homem tem que progredir. Insulado, não lhe é isso possível, por não dispor de todas as faculdades. Falta-lhe o contacto com os outros homens. No insulamento, ele se embrutece e estiola.”

Questão nº 768 = Procurando a sociedade, não fará o homem mais do que obedecer a um sentimento pessoal, ou há nesse sentimento algum providencial objetivo de ordem mais geral?
“Sem dúvida, pois que por instinto os homens buscam a sociedade e todos devem concorrer para o progresso, auxiliando-se mutuamente.”

Desse jeito, pensamos que a compreensão do texto fica muito facilitada e a objetividade e clareza são resgatadas com simplicidade. Não bastando, consultamos a versão francesa (1ª edição, arquivo disponível na Internet), ali notando que há, para as respostas acima, apenas uma pergunta (a da questão 381):

381 — L'isolement absolu est-il contraire à la loi de nature?
« Oui, puisque les hommes cherchent la société par instinct, et qu'ils doivent tous concourir au progrès en s'aidant mutuellement. »

— L'homme, en recherchant la société, ne fait-il qu'obéir à un sentiment personnel, ou bien y a-t-il dans ce sentiment un but providentiel plus général ?
« L'homme doit progresser ; seul il ne le peut pas, parce qu'il n'a pas toutes les facultés ; il lui faut le contact des autres hommes. »
« Dans l'isolement il s'abrutit et s'étiole. »

Perguntamos, então, com o fim de firmar nossas ideias em melhor terreno:
. Não lhe parece plausível entender que, dividindo em duas as perguntas, as respostas foram trocadas, na montagem de uma dada edição?
. Mas, se foi assim, o que explicaria a permanência dessa situação nas demais edições, sem revisão que a corrigisse?

Vital Cruvinel disse...

Olá, Adriano!

Muito curiosa esta sua observação! Realmente, a troca das respostas parece tornar mais claro o texto.

Por outro lado, é importante ficar claro que a atribuição das respostas às perguntas é a mesma tanto na primeira edição quanto na segunda. O que diferencia é divisão na segunda edição em dois itens de diálogo (o 767 e o 768).

É interessante que isto vem demonstrar a liberdade que Kardec teve para editar as perguntas e respostas sem contudo alterar substancialmente o pensamento dos espíritos.

Abraços e obrigado!

Rafa disse...

Caro Adriano,

Sua observação não só é pertinente como verdadeira. Na 2a edição de 1860 (consulte o site www.ipeak.com.br para ter algumas edições francesas dos livros de Kardec), consta exatamente como na primeira edição a que tiveste acesso. Também há uma edição (17a.) de 1869, provavelmente a primeira depois da desencarnação de Kardec, as duas respostas da 767 e da 768 constam com a ordem que colocaste. Isto é, Kardec não alterou a ordem das resposta enquanto em vida e talvez a FEB tenha cometido um erro de tipografia que não foi corrigido posteriormente.

Sds,

Luiz Rafael dos Santos

Leopoldo Daré disse...

Olá Adriano
Olá Rafael

Se vocês observarem, a ordem das perguntas e das respostas mantêm-se iguais no texto que vocês selecionaram da tradução em português e no francês.
A diferença entre a primeira edição e a segunda é que na segunda edição estão numeradas, e na primeira edição a segunda pergunta está como subpergunta da primeira (Kardec não numerava as subperguntas. A enumeração com item a, b, etc foi uma iniciativa dos tradutores brasileiros).
Quero destacar um ponto de seu texto Adriano: a linguagem clara. Esta linguagem clara não é apenas dos Espiritos, mas de seu editor: Kardec. Kardec não apenas copilou respostas, como as organizou e corrigiu gramaticalmente e as fragmentou e rearranjou para maior clareza e objetividade.

Vital Cruvinel disse...

Oi, Rafa, Adriano!

Acho que pode haver um mal entendido aí. Conferi esta tradução da FEB com o texto original e aparentemente as frases estão na ordem correta.

Por favor, vejam se não sou eu que não estou conseguindo ver alguma coisa.

Abraço!

Daniel Araújo Lima disse...

Prezados Leopoldo e Vital,
Meu nome é Daniel Lima, moro em Fortaleza-Ce e também sou espírita. Pouco tempo atrás tomei conhecimento deste blog através de um amigo, justamente porque fazíamos pesquisas sobre alguns fatos específicos ocorridos na Sociedade Espírita de Paris. Ao ver o conteúdo do blog fiquei muito contente, haja vista que eu também vinha fazendo o estudo comparativo da primeira e da segunda edições de O Livro dos Espíritos, e também porque fica claro, pelas outras publicações, o interesse de vocês em verdadeiramente conhecer mais a fundo a obra de Allan Kardec, geralmente estudada pelos espíritas apenas de modo superficial.
Dessa forma, gostaria de convidá-los a conhecer um instituto do qual faço parte e com o qual certamente vocês irão se identificar. Trata-se do IPEAK, Instituto de Pesquisas Espíritas Allan Kardec (www.ipeak.com.br), onde vocês vão poder encontrar todas as obras de Kardec inter-relacionadas (Roteiro de Estudos), os originais em francês de todos os livros publicados por ele, bem como aqueles que foram indicados no Catálogo Racional. É um material muito vasto, que estamos utilizando já há algum tempo para entender melhor o pensamento e a história de Kardec e da Sociedade Espírita de Paris. Recentemente também lançamos um aplicativo para dispositivos IOS (iPad, iPhone e iPod) contendo o mesmo conteúdo do site. Espero que vocês gostem do material e que ele ajude nas suas pesquisas. Quem sabem possamos vir a trocar mais ideias no futuro...
Também os convido a conhecerem o site do GEAK (Grupo Espírita Allan Kardec), com sede em Curitiba, mas que acaba sendo um grupo espírita meio que “virtual”, pois várias pessoas participam dos estudos via internet (Skype) e também porque todos os áudios das reuniões são disponibilizados no site em formato MP3.
Um abraço e que os bons espíritos os guiem.
Daniel

Leopoldo Daré disse...

Olá Daniel!
Fico muito feliz e consideração com nosso trabalho. Espero que possamos realizar um encontro para reunir aqueles que estão estudando sobre Kardec e seu tempo. Tenho certeza que do encontro poderá surgir um livro com grandes contribuições.
Estou procurando as primeiras edições não revisadas da Revista Espírita de 1858 a 1860 (ou 1861). Conhecemos um pouco o trabaho do IPEAK. Lá não encontrei as edições não revisadas. Seu grupo conseguiu?
grande abraço e muito sucesso
Leo