domingo, 18 de abril de 2010

Uma controvérsia com Anna Blackwell

O artigo do pesquisador Alexander Aksakof não poderia ter ficado sem resposta dado o seu teor agressivo. E não ficou! Passados alguns dias da publicação deste artigo, Anna Blackwell, que traduziu o Livro dos Espíritos para o Inglês, publicou na mesma revista The Spiritualist a sua resposta. Esta também está reproduzida no jornal eletrônico Psypioneer (edição de fevereiro de 2009). Veja nossa tradução:

A Origem do "Livro dos Espíritos" de Allan Kardec

Excelentíssimo senhor, ocupada como eu sou, devo pedir-lhe que me permita oferecer algumas observações em referência ao artigo do senhor Aksakof no número do The Spiritualist que acabo de receber.

Por mais que a opinião do senhor Aksakof seja contrária, a maioria de seus leitores certamente irá concordar comigo que "o ponto essencial da crítica de qualquer livro" é saber o que o livro contém, e examinar seus pontos de vista, argumentos e conclusões. Se o senhor Aksakof tivesse feito isso em relação às obras de Allan Kardec, ele poderia ter se poupado do trabalho de escrever seu artigo; pois ele teria visto primeiro, que, invariavelmente, Allan Kardec define sua obra como tendo sido o estabelecimento de uma forma coerente e sistemática das observações que foram realizadas, mais ou menos vagamente, por eminentes pensadores de todas as épocas desde a mais remota antiguidade até os dias atuais, mas que tem sido estabelecida de forma mais completa, clara, e consistente, através da instrumentalidade dos médiuns modernos. Em segundo lugar, que, longe de "apresentar a Reencarnação como um dogma", ele sempre a trata como uma questão a ser resolvida exclusivamente pelo argumento e pela razão. Em terceiro lugar (e isto me leva à essência do referido artigo), que ele repete, mais de uma vez, que todos os seus livros foram compilados por ele a partir das comunicações simultâneas dos médiuns em todas as partes do mundo. Agora, é evidente que, sendo este o caso, era impossível para Allan Kardec citar os nomes de todos os médiuns cujas comunicações foram usadas na compilação dos livros; e ele decidiu (aliás, a pedido de muitos deles) não citar o nome de nenhum deles. O senhor Aksakof está mal informado em relação ao início e à primeira aparição de O Livro dos Espíritos; pode ser visto no prefácio, onde eu apresento as declarações que me foram dadas sobre o assunto pela esposa de Allan Kardec, e por seus amigos mais íntimos, bem como os resultados do meu conhecimento pessoal sobre ele. É possível que alguns trechos do conteúdo adicional introduzido na "edição revista" (que permaneceu como a forma definitiva de O Livro dos Espíritos) podem ter sido obtidos pelos dois médiuns cujas declarações do senhor Aksakof teriam recebido por regra; mas eles não devem ter tido nenhuma participação na primeira produção da obra que esse senhor atribui a eles. E a sugestão de que "os espíritas tenham enterrado vivos estes dois médiuns", como a fábula que coloca Allan Kardec como integrante do L'Univers, é muito absurda para uma refutação séria.

A afirmação do senhor Aksakof de que "as manifestações físicas são sempre contrárias à reencarnação" é desmentida pelos fatos. No meu caso, as indicações relativas às minhas existências passadas me foram dadas através de vários dos nossos melhores médiuns de efeitos físicos e, em alguns casos, não aceito por eles (como uma vez, pelo senhor Home, em transe), em outros (como no da jovem senhora Marshall), para sua grande surpresa; e um imenso número de pessoas poderiam testemunhar experiências semelhantes. Além disso, "John King", como já salientei no Espiritualismo e Espiritismo, tem afirmado repetidamente que ele viveu na terra nos reinados da rainha Elizabeth e de Charles II; e sua filha "Katie" fez, você vai se lembrar, uma conjectura semelhante, ao príncipe Emile de Sayn-Wittgenstein, de estar ligada a ele em uma de suas encarnações anteriores. O último número do The Medium também contém uma consideração extremamente interessante, da afirmação de suas reencarnações pelo "espírito materializado" de "Thomas Ronalds", e isso em um grupo de assistentes que não parece ser favorável à doutrina da pluralidade de nossas existências terrestres, das quais, no entanto, abundante confirmação de um caráter semelhante sem dúvida está por vir tão logo este ramo da arte da manifestação se torne comum entre os povos do mundo espiritual.

Quanto à acusação de que o jovem médium francês, Camille Brédif, agora fazendo um bom serviço na Rússia, não foi mencionado na Revista Espírita, o senhor Aksakof parece não ter consciência do fato de que a atual fase de Camille na mediunidade, como a do coitado do Firman, só foi desenvolvida no ano passado e, como conseqüência direta da visita do senhor Williams a Paris; antes desta visita a influência que torna a "materialização" possível, não parece ter atravessado o Canal da Mancha, e a mediunidade de Camille produziu apenas raps, com o movimento de objetos em sessões escuras, que não se pode dizer que tenha feito muito para convencer os céticos.

Igualmente infeliz é a afirmação do senhor Aksakof de que Allan Kardec tenha "ignorado" o senhor Home e as manifestações obtidas por seu intermédio; se ele tivesse lido O Livro dos Médiuns, ele teria visto que elas são tratadas neste trabalho.

O senhor Aksakof diz que Pezzani e Cahagnet acolheram a doutrina da reencarnação antes de Allan Kardec; mas por que é que ele se refere apenas a esses dois? No The Testimony of the Ages eu tenho dado uma lista "tão extensa quanto o meu braço" de modernos escritores que têm, como "precursores", preparado o caminho para a completa apresentação da lei de nossas existências sucessivas de que Allan Kardec foi destinado a elucidar mostrando, não mais como uma simples idéia filosófica, mas como parte integrante do plano geral da Providência para todos os tempos, mundos, e reinos. O trabalho específico de Allan Kardec, como ele mesmo define, é o de um comparador, conferidor, compilador; mas, não obstante, apresenta, na sua totalidade, um conjunto filosófico, que é reconhecido como novo, original, único por todos os que tomaram o trabalho de verificar por si mesmos o que realmente é.

O senhor Aksakof conclui seu artigo comentando, muito verdadeiramente, que é "mesmo necessário ressaltar que tudo que ele afirmou não afeta a questão da reencarnação considerada por seus próprios méritos"; para cuja admissão acrescento que o problema em questão, levantado pelos livros que estou me dedicando em trazer ao alcance do mundo de fala inglesa, acabará por ser resolvido, única e exclusivamente, pelos seus próprios méritos, apesar de todos os esforços dos seus adversários em tirar o foco da questão, ignorando o próprio conteúdo desses livros, e substituindo a análise desapaixonada da sua argumentação pelo descrédito desprovido de provas, e pela repetição de afirmações infundadas ou distorcidas não tendo nada a ver com a questão em causa, inicialmente vindos à tona pela inveja e ciúme, e que foram tratados por Allan Kardec, durante a sua vida, com a magnanimidade do silencioso desprezo.

Anna Blackwell.

Wimille, Pas de Calais, 15 de julho de 1875

6 comentários:

Jáder Sampaio disse...

Vital,

Por trás desta crítica ferina houve um ataque ao caráter de Kardec, que envolve os cadernos que ele utilizou na construção do seu trabalho.

Aksakof predispôs-se negativamente, o que explica o ataque.

Uma boa leitura sobre o assunto é o History of Spiritualism, escrito pela australiana (faltou-me o nome de memória).

Um abraço

Jáder

Augusto Araujo disse...

Oi Vital:

Desde o artigo de Aksakov que quero lhe dar os parabéns publicamente por sua capacidade investigativa e de grande caçador de raridades. Continuo fã do "Decodificando"! Parabéns!

Amelio disse...

Vital, meus parabéns. Aonde vc conseguiu este artigo ? E o artigo do Aksakof, que originou tudo isto. Onde está ?

Vital Cruvinel disse...

Olá, pessoal!

Jáder, obrigado pela indicação do livro.

Augusto, também sou fã de seu trabalho... ou melhor, sou seu fã!

Amélio, o artigo do Aksakof (e a indicação da fonte) você pode conferir no post anterior http://decodificando-livro-espiritos.blogspot.com/2010/03/uma-controversia-em-detalhes.html

Abraços!

Amália disse...

Anna Blackwell= Ruth Célie Japhet= Eu.

www.acordainfinita.blogspot.com

Vital Cruvinel disse...

Olá, Amália!

Japhet e Blackwell foram contemporâneas. Será que você não está enganada em relação a sua identidade?

Abraço!